Pelourinho, retrato de uma nação

Numa manhã nublada do inverno de Salvador, duas turistas, possivelmente paulistas, manifestavam num ponto de ônibus da rua Chile a decepção com a visita que tinham acabado de fazer ao Pelourinho. “Pensei que tivesse mesas e cadeiras por toda parte, que fosse diferente”, disse uma delas.

 

 

Não pude deixar de interferir na conversa, pois quase nunca consigo deixar de interagir em assuntos que me dizem respeito.

E o Centro Histórico de Salvador, área conhecida como Pelourinho, que na verdade abrange apenas uma parte desse centro, foi durante vários anos meu local de trabalho, quando assessora de imprensa do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), órgão responsável pela realização das obras de recuperação do local.

Na ocasião, o IPAC ficava situado num prédio magnífico, o Solar do Ferrão, que pertencera a uma das mais ricas famílias baianas, e a minha sala, se é que pode se chamar aquilo de sala, inicialmente foi no sótão do prédio e consistia numa mesa e numa cadeira velhas rodeadas de montes de jornais por todos os lados. Sempre gostei de coisas antigas (e de ideias modernas), e essa assessoria foi um dos meus trabalhos favoritos. Adoro ver a transformação de ruínas e coisas destruídas pelo homem, ou estragadas pelo tempo, em coisas utilizáveis e belas de se ver.

Trabalhar no Pelourinho era muito divertido. O lugar era como um teatro a céu aberto, as pessoas que circulavam pela área eram interessantes, as ruas coloridas e barulhentas, tinham uma baianidade irresistível. Era gente para cima e para baixo, ensaios de grupos musicais, obras de restauro de casas, movelaria e santos, turistas circulando e muita energia rolando. Enfim, para mim, trabalhar lá era mais prazer que obrigação.

Na época, mais da metade da década de 1990, a recuperação do Centro Histórico ainda estava na sua quarta ou quinta etapa, não lembro bem, mas as ruas principais já estavam prontas com praças, lojas, ateliês, museus e restaurantes funcionando a todo vapor. Todo dia era uma novidade.

Vale informar para quem ainda não conhece o Pelourinho – pasmem, isso inclui muitos soteropolitanos - que essa área de Salvador é considerada o maior conjunto arquitetônico colonial da América Latina. Foi tombado como patrimônio da humanidade em 1985 pela Unesco e reúne cerca de 800 imóveis.

O nome Pelourinho veio do engenho reservado ao castigo dos negros escravizados, comerciantes desonestos ou infratores das leis, uma espécie de poste de madeira ou de pedra (piloro) onde eles eram algemados para serem chicoteados.

Inicialmente, o piloro ficava na Praça Municipal - atual Praça Thomé de Sousa onde fica o Elevador Lacerda, a Câmara dos Vereadores, o Palácio Rio Branco e o moderno e feio, na minha opinião, prédio da prefeitura.

Posteriormente, o local de suplício foi transferido para o Terreiro de Jesus, porém com o protesto dos jesuítas, incomodados com os gritos dos infelizes durante as missas, passou para perto das portas de São Bento onde ficavam as muralhas da cidade, nas imediações da hoje Praça Castro Alves. No século XIX, foi levado para o atual Largo do Pelourinho, no qual permaneceu até que essa punição foi extinta.

As ruas do Pelourinho foram pavimentadas com “cabeças de nêgo”, pedras ovais trazidas nos lastros dos navios para dar maior estabilidade às naus. Foi assim também que foram transportadas as pedras que construíram a Catedral Basílica, situada no Terreiro de Jesus, e que segundo historiadores veio pronta de Portugal só precisando ser armada, como num quebra-cabeças. O seu interior, a nave principal, as pinturas no teto e os altares foram construídos com o passar do tempo.

Aliás, para quem não tiver muito tempo e queira se inteirar um pouco da história e da cultura do lugar, sugiro que visite algumas das igrejas, especialmente a de São Francisco, que considero a mais bonita de todas. Folheado em ouro, o templo católico é de uma beleza esplendorosa e levou 40 anos para ser construído. Não sei se São Francisco, o santo dos pobrezinhos, aprovaria tanto luxo, mas o trabalho não deixa de ser um legado católico para aqueles que amam o belo.


As imagens esculpidas pelos mestres santeiros baianos são obras primas da arte sacra e a igreja provoca forte impressão naqueles que vão lá pela primeira vez. Dizem, inclusive, que quando a rainha Elizabeth II, da Grã-Bretanha, visitou a Bahia em novembro de 1968, soltou um suspiro de admiração ao entrar na igreja. Não posso garantir o que o povo diz pois não estava Pelourinho, retrato de uma nação Por Aurora Vasconcelos REVISTA BACANA www.revistabacana.net 35 lá, e todos sabem que os baianos são bastante bairristas, mas seria de admirar se ela não o tivesse feito.

A Catedral Basílica, por outro lado, situada entre o Terreiro de Jesus e a Praça da Sé, apesar de construída durante o período barroco tem um estilo geral maneirista. O seu interior, a nave principal, as pinturas no teto e as capelas secundárias foram construídos em diferentes períodos entre os séculos XVII e XVIII.

Existem ainda mais duas igrejas no Terreiro de Jesus -São Domingos Gusmão e São Pedro dos Clérigos - e a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída por negros escravizados nos seus momentos de folga.

Muitos outros locais para se visitar no Pelourinho. O Museu Afro-Brasileiro, Museu de Arqueologia e Etnologia, Museu de Azulejaria e Cerâmica, Museu da Cidade, bem como a Faculdade de Medicina, a primeira do Brasil fundada em 1808 pelo príncipe regente D. João, e que durante vários anos exibiu as cabeças de Lampião, Maria Bonita e de outros cangaceiros.

Perguntei às duas moças se elas tinham levado um guia, ou alguém que conhecesse bem a história local, para o passeio e disseram-me que não. Uma pena. Acredito, que quem quiser aproveitar melhor a visita deve procurar se informar antes d incursão, através de prospectos que podem ser conseguidos no posto da Bahiatursa, na Rua das Laranjeiras, através da internet, ou contrate um guia. Há muita coisa para ser ver no Pelô e é sempre mais legal e instrutivo saber onde se está pisando.

No verão, existem shows quase todos os dias nas suas praças, muitos deles gratuitos. O Terreiro de Jesus e as ruas que dão acesso à Ladeira do Pelô são bons lugares para curtir o clima. A banda Olodum ensaia no Largo do Pelourinho duas vezes por semana e às terças-feiras, o cantor Gerônimo, responsável pela música que é considerado por alguns o hino de Salvador “É de Oxum” faz um tradicional show na Escadaria do Passo (Ladeira do Carmo). Oxum é a orixá das águas, da gentileza, da beleza, do luxo, e do dengo. Para quem não conhece, vou deixar aqui alguns versos da canção, em ritmo de ijexá:

“Nessa cidade todo mundo é d’Oxum Homem, menino, menina, mulher Toda essa gente irradia magia Presente na água doce Presente na água salgada E toda cidade brilha...”

 

*Aurora Vasconcelos é jornalista, com especialização em Filosofia Contemporânea e mora em Salvador.

 

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