-Um pouco clichê isso de afogar as mágoas no álcool, não? - perguntou um dos homens sentados à mesa do bar.

- Como sabe que afogo mágoas? - perguntou indagado.
- O bar é o hospício mais famoso do mundo. Além disso, sou um leitor de olhares, meu caro. É apenas meu trabalho - ironizou - E você? Trabalha?
- Eu era um engenheiro de palavras. Gostava de construir neologismos, eufemismos e metáforas. Hoje eu sou um destruidor de almas.
- Por isso está aqui? Destruiu uma alma?

Eis que o homem inventara a maquina mais poderosa do mundo. Branca e dourada, a maquina produzia os sonhos mais perfeitos que existiam. Não eram sonhos pequenos, pois estes deixariam a sociedade presa num marasmo vicioso, tampouco eram sonhos grandes – estes provavelmente criariam o caos. Categorizavam-se os sonhos em segmentos sociais, logo, pessoas pobres não poderiam ter sonhos ricos ou vice-versa.  A verdade é que eram sonhos estrategicamente montados para que as pessoas conseguissem viver enquanto estivessem morrendo.

Quando se viu fora da gaiola,
O pássaro pensou que podia voar
Mas cortaram suas asas
E ele era enganado ao pular

Sentia a amena brisa em seu rosto
E pensava que eram os fortes alísios
Pobre pássaro, não sabe do perigo que corres
A falsa liberdade gera o comodismo.

Mas os pássaros não aprisionam outras aves
Eles são cárceres da espécie humanas
O homem que corta seus próprios sonhos
E depois corta seus próprios pulsos.

~ Vitória Croda Pinto

Que se foda a tragédia humana
Que se foda o patriarcalismo
Que se foda o que está na lama
Que se foda o ostracismo

Um grande foda-se para a miséria
Principalmente se esta for de sonhos
Fodam-se mais ainda as mentes serias
Elas nao veem graça na televisão

No final do ano, todos os bichos jovens faziam fila em frente a um penhasco para completarem seu ritual. Quem os comandava era uma águia branca de olhos azuis. Ela os observava e os pontuava de acordo com seus méritos e suas falhas durante o voo. Nem todos nasciam preparados para voar, mas Sam – a tal águia que os comandava – sempre dizia “Aquele que não consegue voar está destinado a viver abaixo de uma zona abissal comandada por monstros marinhos”, ou seja, levando em conta que os peixes não têm respeito algum dentro da sociedade animal, quem não sabe voar rende-se à discriminação dos outros bichos.  

Se o olho humano é lento demais para captar, com precisão, os batimentos das asas de um beija-flor, devem existir outras coisas tão rápidas que nossa mente não é capaz de processar e que nos fazem produzir imagens distorcidas do real. Há alguns meses, tive a sorte de conhecer uma coisa mais rápida do que o próprio voo do beija-flor e tive a infelicidade de criar uma imagem borrada do verdadeiro. Estava numa livraria folheando alguns livros sobre Salvador Dalí e suas obras surrealistas quando avistei uns olhos perdidos numa obra do Drummond. Esqueçam Machado de Assis e os olhos de ressaca de Capitu, aqueles eram os olhos mais incríveis que eu já tinha visto em minha vida.

“Sorria, você está sendo filmado. Sorria, você está sendo comentado, julgado e criticado. Sorria, você está sendo vítima de preconceito. Sorria, você está depressivo. Sorria, ria, dê altas gargalhadas, pois nessa terra caótica é proibido choramingar. Não chore, você não tem motivos pra isso. Não derrube uma lágrima, pessoas morrem de fome diariamente e você tem tudo. Não esperneie, você é livre mesmo sendo julgado pelo que faz. Não faça drama, deixe isso para os filmes hollywoodianos. Não ouça musicas tristes, não escreva coisas melancólicas, não pense em tragédias. Construa uma casca e a chame de “sorriso”. Mostre dentes, dê gargalhadas ou ria timidamente. Só sorria, você está sendo filmado.”
~ Vitória Croda Pinto

Quem me conhece sabe que eu gosto de pensar sobre o imaginário e sobre coisas que nunca aconteceram, mas ultimamente me veio um desejo enorme de escrever sobre uma estranha fascinação minha: cabelos.
Descobri que gosto dos mais variados tipos de cabelo possíveis. Gosto de cabelos bagunçados, arrumados, lisos, crespos e ondulados. Não conseguia enxergar tamanha beleza nesses fiozinhos que saem da cabeça antes de descobrir que eles saem do mesmo lugar que se produzem sonhos e fantasias – coisas que eu, particularmente, sou apaixonada.

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