Senhor, Conforme Vossa Majestade me autorizou, cá estou de volta a esta Vossa antiga gleba para acompanhar, de perto, este QUINTO ato dessa Ópera Bufa, meio surrealista que cá se realiza cinco séculos depois. 

O que eu pude ver, Senhor, foi pouco se é que tinha alguma coisa para se ver: mas, o que vi, não difere muito do que cá deixamos cinco séculos atrás; só que agora, alguns papéis, assim se me parecem, foram um pouco invertidos. Invasores, se sentiam invadidos e invadidos se sentiam invasores.

Veja Vossa Mercê, que alguns, envergonhados, cobriam suas vergonhas com um tipo de pano matizado e traziam, ao invés de arcos, flechas e bordunas, um outro tipo de pau que, de verdade, era de metal, talvez por erro do cenógrafo ou do continuísta, que cospe fogo. E ai de quem estiver no meio do caminho! 

Mas, para meu espanto, apesar do que foi gasto e dos ensaios que levaram mais de dois anos, houve erro também no roteiro, produção e direção. E olhe que muitos foram avisados para mandarem o Manuel ou Joaquim; mas a turma da grandiloquência sugeriu Franco Zeffirelli que, por ser italiano como Américo Vespúcio, foi logo descartado.

Um velhinho, de cabelos brancos, queria porque queria o espírito de Fellini. Um militar da reserva, eufórico, chegou a sugerir Sam Peckinpah, um diretor americano que foi também descartado porque nesta peça não haveria muito sangue. Uma velhinha, funcionária pública aposentada, com mais de 80 anos, sugeriu Frank Capra. Não foi nem ouvida.

Um revolucionário cravista ainda de 1974, lá em Vossa terra, ufanisticamente, chegou a sugerir o moçambicano Ruy Guerra para dirigir essa ópera bufa, que não foi aceito porque na década de 1960 tivera alguns probleminhas na linha de baixo do Equador. Um anarquista, dizendo que tudo séria comédia, sugeriu Woody Allen. Sequer foi ouvido. 

Já que ninguém chegou a um contexto sobre a festa do descobrimento do Brasil, a solução encontrada foi uma direção coletiva, embora os mais experientes desconfiassem que barco de muitos mestres termina dando na raia. 

Como o negócio era agradar a gregos, troianos, biribanos, cubanos, venezuelanos e baianos, só para a primeira tomada foram feitos 143 planos. Na hora de usarem o zoom, alguns iniciantes, não sabiam se afastavam ou aproximavam as imagens.

Mas, a cena mais burlesca e bizarra de todas foi quando escolheram um rei Momo para a direção da produção e que queria porque queria inserir o carnaval na cena de abertura para mostrar a alegria dos brasileiros quando Cabral aqui aportou. E assim foi feito, meu Rey.

Mas, aproveitando essa missiva, gostaria de lembrar a esse augusto soberano que aqui, nessa Vossa terra, está uma esculhambação generalizada, onde ninguém se entende e, quem se entende, divide o butim entre si. Deste Porto Seguro, desta Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, quinta-feira, 4 dias do mês abril, do ano 2019, da Graça do Senhor. 

Velhoroma, olhando de soslaio. 

P.S. Esta missiva está indo atrasada porque a caravela que deveria ter chegado aqui com tinta e papel a semana passada, por falta de vento, atrasou.

por Romeu Fontana 

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